segunda-feira, 9 de novembro de 2015

'Lula tem todo o direito de não gostar de mim', diz ministro da Justiça

Acusado por petistas de não controlar a Polícia Federal, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirma que essas críticas são injustas. Ele conta também que, já no ano passado, sugeriu à presidente Dilma Rousseff que o tirasse do cargo.
Cardozo assume ter perdido amigos e ganhado inimigos à frente da pasta. Ele até admite que o ex-presidente Lula possa não gostar dele.
"Se você quer, na vida política, se comportar dentro dos princípios do Estado de Direito, se prepare para ter inimigos e perder amigos".
Mas o sr. acha injusto esse tipo de crítica?
Ele nunca fez essa crítica direta. Vejo muitas especulações. Mas Lula tem todo o direito de não gostar de mim. Só não posso dizer quais são razões. Aliás, soube através de amigos que quando ele era presidente e eu deputado ele elogiou minhas ações.
Fossem essas críticas, se alguém criticar o sr. pela atuação na comissão ou no Ministério da Justiça, acha que ela é válida ou injusta?
Para que possa fazer uma autocrítica, tenho que saber de que me acusam. É muito comum dizer "não gostei porque você não controla a PF". Se a crítica é que não controlo a PF, desculpe, ela é injusta. O que é controlar a PF? Seria impedir que ela fizesse as investigações com liberdade, seria orientar investigações? Isso não faço mesmo e não acho um defeito. É uma virtude, um dever. Não controlar é não punir abusos? Qualquer abuso que me chegou, tomei as medidas corretas. Não me parece que tem qualquer procedência essa crítica.
O sr. acha que serve de anteparo para não baterem na Dilma?
Não somos anteparos. Respondo pelo que faço. Claro que presto contas à presidente. Posso até errar. Mas atuo estritamente dentro dos princípios que sempre defendi inclusive como petista. Como petista, sempre defendi o Estado de Direito. Como petista, sempre defendi a ética na política. Como petista, sempre defendi que investigações não devam ser jamais orientadas pelos governos. Acho que concorro estritamente dentro do que acredito e defendi como militante petista.
O ex-ministro Tarso Genro defende a refundação do partido.
Desde 2005, a minha corrente, Mensagem ao Partido, defende a refundação. Fui candidato a presidente do PT duas vezes defendendo essa tese. Hoje, deixei de atuar dentro das instâncias partidárias porque não posso na condição de ministro. Quando deixar o Ministério darei minha contribuição de militante. Temos problemas que devem ser objeto de correção.
Há petistas que, para sustentar críticas ao sr., alegam que Thomaz Bastos soube controlar melhor a PF. O sr. vê alguma diferença nisso?
Não vejo diferença de comportamento. Sim, de conjuntura. Até porque ele foi um dos grandes responsáveis pela PF autônoma. Lula sempre incentivou isso. Houve um momento em que o irmão de Lula teve uma busca e apreensão em sua casa. E Lula fez uma declaração de grande estadista: que como presidente respeitava a PF.
MINISTRO INVESTIGOU AMIGO DE LULA
Cardozo integrou uma comissão interna do PT nos anos 90 que investigou um amigo de Lula, o advogado Roberto Teixeira, suspeito de ajudar uma empresa a obter contratos com prefeituras petistas.
A comissão o considerou culpado, mas ele recorreu ao diretório nacional do PT e foi absolvido.
Lula morou num imóvel de Teixeira por oito anos.
As acusações vieram do fundador do PT Paulo de Tarso Venceslau, que rompeu com a sigla em 1998. À época, Lula disse que Venceslau falava "asneiras".